tic-tac
Lembram-se daqueles relógios de plástico manhosos com ponteiros que andavam com a força dos dedos que os empurravam, que se compravam nas feiras, para os miúdos achassem que tinham um relógio como o do pai ou do avô? Estou a falar de coisas com 20-30 anos… (deve haver quem não se lembre).Pois, mas os relógios eram assim: “ranhosos”, cores garridas, fivela dourada que deixava o pulso verde ao fim de poucas horas de uso, durabilidade curta e ponteiros sem vida própria. A mãe do André comprou-lhe um quando ele tinha os seus 3-4 anos, porque ele gostava muito dos relógios de pulso dos adultos aos quais encostava o ouvido para escutar o tic-tac. Quando viu o relógio ficou radiante e pediu ajuda para o colocar no pulso. Depois, encostou-o ao ouvido e esperou. Como não houve resposta, arrancou-o do braço e atirou-o pela janela do segundo andar. “Então André?” perguntou a mãe. “Não presta. Está avariado. Não faz tic-tac.”
amor à distância
grândola

Quando a minha amiga Ana tinha 4 ou 5 anos, viviam-se os anos quentes do pós-revolução de Abril e todos sabiam entoar, mais ou menos desafinadamente, a “Grândola Vila Morena”. Imbuída do espírito de solidariedade da canção e dos tempos que se viviam, ela julgava que “tiócidade” era um sentimento muito bonito, como amizade ou fraternidade…
(serigrafia de Albino Moura)
a nossa conversa hoje de manhã
Ele: Quando a gente diz que faz uma coisa e não faz, as pessoas não acreditam.
Eu: Às vezes acreditam. Quando a gente diz que faz uma coisa e não faz, é mentira, mas podem acreditar em nós .
Ele: Mas quando a gente diz que faz uma coisa e não faz, estamos a mentir…
Eu: Pois estamos.
Ele: O que tu estavas a dizer era o que eu estava a dizer-te, não era?
Eu: Às vezes acreditam. Quando a gente diz que faz uma coisa e não faz, é mentira, mas podem acreditar em nós .
Ele: Mas quando a gente diz que faz uma coisa e não faz, estamos a mentir…
Eu: Pois estamos.
Ele: O que tu estavas a dizer era o que eu estava a dizer-te, não era?
Pedro e o céu

Ele estava a observar atentamente a capa de um CD de música, onde por trás do autor estava o céu. Olhou para mim e perguntou-me:
- Este céu chega até Oeiras?
- Sim, filho. Chega.
- E chega até à África do Sul?
- Sim, chega a todo o lado. À Austrália, à Finlândia, a todos os países, a todo o lado.
- Porque é que o céu é tão grande e chega a todo o lado?
(des)culpa
Fiz qualquer coisa errada e pedi desculpa.
- Desculpa, eu – respondeu-me ele.
- A culpa foi minha – repliquei.
- Não, a culpa foi minha. *Pausa* … O que é culpa?
(Pedro, 3 anos)
- Desculpa, eu – respondeu-me ele.
- A culpa foi minha – repliquei.
- Não, a culpa foi minha. *Pausa* … O que é culpa?
(Pedro, 3 anos)
criatividade
clonagem

Um dia destes vou ao Castelo de Beja com a Avó. Não podemos ir ao Castelo de Beja e ao Jardim. Tem que ser uma coisa de cada vez, porque não temos duas cabeças, nem quatro pernas, nem quatro olhos. Se tivéssemos duas cabeças e quatro olhos e quatro pernas podíamos ia ao Castelo e ao Jardim. Mas assim não…
sabedoria de não-sei-quê

Quando a Margarida fazia perguntas à mãe que a deixavam sem saber a resposta ou pelo menos como explicar a resposta a alguém de 5 anos, a mãe pedia-lhe que as colocasse mais tarde a duas amigas que as costumavam visitar. Numa dessas vezes, a Margarida respondeu-lhe:
Elas sabem sempre tudo… também, uma é bióloga e a outra é não-sei-quê!
flores
smell talk
retrato de família

Na parede está um retrato com 30 anos onde está a minha mãe comigo e com a minha irmã, as 3 meio franzidas pelo sol de frente e pelo sorriso que fazíamos para a máquina. Apesar de sempre ter estado lá na parede, desde que Pedro nasceu, parece que ontem é que o viu com atenção e perguntou-me:
- Aquela és tu?
- Sim, sou. Tinha 6 anos e a tia Lena 9.
- E a avó?
- A avó devia ter 30…
- Agora tem 31!
mudança

A tia Lena anda em mudança de casa, tendo comprado uma e vendido a outra onde o Pedro gostava muito de ir brincar com os objectos que a tia guarda em caixas "mágicas". Quando lhe disse que da próxima vez que fossemos ter com ela, já não iríamos à casa onde ele costumava brincar, perguntou-me: Onde é que a tia Lena pôs a outra casa?
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